Contos

Salto

No térreo do edifício mais baixo da miniópole, um homem eufórico olha para cima sem hesitar quanto ao salto. Seu corpo leve, em impulso acorrentado, demoraria vários minutos para chegar lá em cima. Então seria o início de tudo.

No último andar, raras pessoas observam, algumas murmurando:

— Não salte, não salte...

A maioria, porém, segue indiferente dentro dos poucos escritórios do prédio. Nada de bombeiros, nada de ambulância. Quase ninguém disposto a atrapalhar.

A vida inteira o homem ansiara e temera por aquele dia. Agora está ali, basta um impulso para subir, e ele nem sequer pensa. Joga-se então de cabeça para o tudo, para o cheio do seu pequeno universo, para o preenchimento. A força
da gravidade atrapalha. Agora, sabe o homem, voltar atrás seria possível, como sempre fora. Mas ele não desiste. Quando seu corpo chegar, em-início, lá em cima, será nascimento certo.

Sim, tem medo. Todos sabem que há morte depois da vida, e confrontar-se com o efêmero daquele céu apavora. Mas continua elevando-se. Aqueles minutos de salto parecem frações de segundo, nos quais os acontecimentos de um nãoviver inteiro evitam passar pelos seus olhos, sucessivamente, como cenas de um
musical sem trilha sonora.

Não há cobertura televisiva. Os jornais nunca publicam essas coisas, embora seja raro que elas estimulem atitudes semelhantes em outras pessoas. O salto do homem para a vida simplesmente não é notícia.

Quando chega lá, corado, seu corpo ainda mais leve quase não causa impacto. Nasce, mas não na hora. Leva algum tempo, há um certo sofrimento. De qualquer forma, o homem está feliz por ter aceitado o convite depois de tantas
dissimulações. Por ter saltado, enfim, totalmente. Ela havia chegado lá um pouquinho antes. Tinham voado quase ao mesmo tempo. Agora, despertariam juntos e contemplariam a vista.


01/05/1999