Contos

Teria sido o vento?

O marido ajeitou Laura no centro do palco, a única parte que havia sobrevivido às chamas. Paralisada naquele passo de balé que muitas vezes provocou aplausos, ela observou com tristeza as ruínas. Felipe era a maior delas. Sentado numa poltrona retorcida, ele observava a mulher e pensava na bobagem que estava fazendo. Não, o contato com o teatro, onde tudo tinha começado, não a faria voltar ao normal. Ele teria de passar o resto da vida com uma pessoa sem movimentos e muda. Uma estátua de metal enferrujado. Nada mais do que uma mulher emperrada — e Felipe não via charme algum no fato de ela estar congelada numa pose de balé: ponta do pé direito no chão, perna esquerda elevada, fazendo um número quatro, braços arredondados para o alto.

Laura percebeu as intenções iniciais de Felipe e o posterior desânimo. Com ele era sempre assim. Asfixiava as fantasias e esperanças tão logo elas nasciam. A depressão do marido a contaminou. Talvez ele tivesse, como ela, desejado o
incêndio do teatro depois daquela noite em que o público a ovacionou. Talvez sentisse culpa, mesmo sabendo que o fogo tinha sido causado por um curto circuito na lavanderia e não pelo seu desejo.


Naquela noite, quando subira ao palco com seus colegas, o teatro estava lotado. E Laura, só. O risco de se dedicar à dança moderna aos vinte e oito anos, depois de já estar consagrada como bailarina clássica, era apenas seu. Os pais haviam sido categoricamente contra. Felipe fora um pouco mais sutil, mas se traíra ao aconselhar cuidado com os críticos. Eles são sempre impiedosos. Sabe como é.

Sim, sabia. Sempre impiedosos. Os críticos.

Com essas lembranças, Laura começou a primeira parte do espetáculo, reservada ao balé clássico. A dança moderna ficaria para a segunda parte. Antes, apresentaria um trecho de Coppelia, de Léo Delibes. Logo ao começar o
espetáculo, resolveu olhar para o público. Na primeira fila, viu seu pai, sua mãe e Felipe. Ao olhar para a direita de Felipe, levou um grande susto: lá estava seu pai novamente. E depois sua mãe. E depois Felipe. E depois outra vez o pai. E assimaté o fim da fila. Até o fim de todas as filas. Nos camarotes, pareceu ver uma figura diferente. Era seu psiquiatra. Sentado em todas as cadeiras, de todos os camarotes, ele a observava.

A música começou em seguida, e a princípio tudo parecia bem. Mas quando a primeira parte do espetáculo chegava ao fim, Laura voltou a encarar a platéia. Pai, mãe, Felipe. Pai, mãe, Felipe. Nos camarotes, o psiquiatra. E tremeu frente ao desafio seguinte. Corou. Começou então a sentir uma rigidez crescente nos músculos e ossos. Não vou cair, pensou. Mas seu corpo enrijecia ainda mais. Ao movimentar os membros, notou que eles rangiam. Primeiro, levemente; depois, fazendo um barulho enorme. Enquanto emperrava, sua pele passava do rosado a uma tonalidade entre o vermelho e o marrom. Uma cor de ferrugem. Não vou cair.

Não caiu, mas sua temperatura sim, e Laura paralisou de vez, em pleno passo de balé. As cortinas se fecharam e o público foi ao delírio.

— Fico deslumbrada com esses efeitos — disse uma mulher na primeira fila.

— Isso não é nada. Na Broadway até helicóptero pousa no palco. E lustres quase caem na platéia — comentou o homem ao seu lado.

Sob alegação de problemas técnicos, a segunda parte do programa foi suprimida. No dia seguinte, houve o incêndio e todo mundo achou normal o cancelamento do espetáculo.

Felipe levou a mulher a vários médicos. Um deles, a maior autoridade mundial em doenças reumáticas, pediu segredo ao admitir:

— Acho que vocês procuraram o especialista errado. Mas não me pergunte qual é o certo que eu não saberia responder.

Foi neste momento que o marido, desesperado, teve a idéia do teatro. Agora a observava, achando tudo aquilo inútil. Levaria a mulher para casa daquele jeito mesmo e se acostumaria. Em meio à sua tristeza, reparou que Laura, assim paralisada, lembrava uma escultura de Edgar Degas, talvez um pouco mais alongada e madura. Não se parecia com ferro velho, mas sim com uma bailarina de bronze. Pela primeira vez, olhou tudo de outro jeito. Daí começou a ventar e ele se levantou para pegá-la no colo. Quando se aproximava, percebeu um leve movimento, acompanhado de um ruído quase imperceptível no braço direito de Laura. Teria sido o vento?


01/04/2000