Contos

Por que parei

Na primeira vez que aconteceu, não se tratava de literatura, mas de jornalismo. Pensei que tinha sido por acaso, mera coincidência. Até achei engraçado. Eu estava no jornal; redigia sobre um atentado a bomba na Cisjordânia. Bastante gripada, por pouco não havia cedido à tentação de ficar em casa naquela noite. Antes tivesse ficado.

Em frente ao terminal de computador, eu escrevia a partir de dois textos da Associated Press, tentando limpar meu trabalho de toda a carga antiárabe presente nos originais. Quando chegou a hora da revisão, tive que rir: "...o adendado ocorreu próxibo a uma nova colônia judaica nos derridórios árabes ocubados...". Adendado. Próxibo. Derridórios. Ocubados. A gripada era eu, mas quem estava fanho era o texto. Corrigi os erros e não pensei mais no assunto, mesmo porque eu já estava acostumada com isso: em dias de maior estresse, os erros de digitação aumentavam.

Pela manhã, ao ler o jornal, me surpreendi ao ver que os mesmos erros ainda estavam lá. Devo ter esquecido de salvar as correções no computador, pensei. Mesmo assim, estranhei que aquilo tudo tivesse passado pelo editor. Vai ver ele estava com pressa e nem leu. Excesso de confiança em mim. Hoje deve estar arrependido. E com essas conclusões esqueci novamente o assunto. Não
por muito tempo.

Na ocasião seguinte foi com ficção. Mais precisamente um conto, escrito num momento de grande ansiedade. Eu havia sido convocada pela primeira vez para assumir, interinamente, a editoria de Internacional do Diário do Povo, e isso me deixava bastante nervosa. Para relaxar, fui para frente do computador disposta a escrever sobre trabalho. E escrevi. Tentando fazer literatura, falei sobre a responsabilidade que envolve o jornalismo, critiquei os interesses escusos (ou nem tanto) que motivam as grandes empresas de comunicação e os anunciantes, reclamei do pesadelo diário de ter de conciliar urgência e qualidade; abordei o jogo de influências, as trocas de favores, os pactos de mediocridade, as malas de sempre e, é claro, as fofocas – sim, porque jornalismo não é mais do que fofoca sublimada. Em meio a tudo isso, tentei manter o bom humor do texto ao relatar a angústia de profissionais que procuram fazer seu trabalho sem ficar de mal com a consciência. Dei então aquela disfarçada que não engana ninguém, trocando nomes, alterando situações e datas e, obviamente, não usei a primeira pessoa. Nunca uso.

O resultado não ficou propriamente à altura do tema, mas a tarefa me aliviou. Achei que o conto, apesar de não ter me agradado totalmente, merecia ser discutido no grupo literário do qual eu fazia parte e comecei a imprimir as sete
cópias necessárias ao debate. Enquanto a máquina trabalhava, fui tomar um chá. Um conto e um chá de erva-doce. Substitutos perfeitos para qualquer calmante. E sem contra-indicações (a erva-doce, pelo menos).

Ao pegar as cópias, notei que havia algo diferente: as letras não eram as mesmas de sempre. O traço estava incerto, irregular, como se tivesse...tremido. Acostumada às maluquices do meu computador, que muitas vezes alterava as configurações sem que eu determinasse, concluí que a fonte tinha sido mudada. Em vez da Arial 14 (minha preferida), a máquina havia impresso o texto em alguma fonte que eu desconhecia. Talvez meu marido tivesse usado o programa e feito suas mudanças. Ou talvez fosse um vírus, memória sobrecarregada...loucuras do meu Pentium. Afinal, os computadores têm razões que a própria razão desconhece. Assim, com várias hipóteses e nenhuma certeza que explicasse o caso, me dei por satisfeita e levei as cópias para o grupo, sem revisar o conteúdo.

Quando pedi para uma colega ler o trabalho, nova surpresa: a história não tinha sido mudada, mas gaguejava o tempo todo. Não, a colega não era gaga. Mas o texto sim. Revisei minha cópia, e estava tudo lá: o jo-jo-jornalista te-teve de fa-fa-fa-fa... fazer um um um um...Um texto tremido e gago. O pessoal achou aquilo tudo interessantíssimo. Eu não tinha o que dizer. Dei um sorriso cheio de significados desconhecidos por mim mesma, aleguei um compromisso e saí mais cedo. Em casa, corri para verificar a fonte do computador. Arial 14. Nenhuma alteração.

O mesmo texto que tinha servido para me acalmar me deixava agora bastante ansiosa. Angustiada. Então meu marido chegou com seu ar eternamente zen e me tranqüilizou novamente. O culpado era o computador, sim. Aquela máquina não podia ser levada a sério. Ele já tinha enfrentado problemas semelhantes. E fomos pra cama.

Fiquei algumas semanas sem escrever, alegando falta de tempo. Entramos em férias e nos preparávamos para ir a Europa quando meu marido foi convocado para uma viagem de sete dias a trabalho. Ele não podia se negar a ir, estava prestes a ser promovido. Além do mais, a Europa seria adiada por apenas uma
semana. Tive de aceitar, embora entristecida. Até ali, nunca havíamos nos separado nem por um dia. Senti muito sua falta. Quando ele ligava, namorávamos bastante pelo telefone. Ficava excitada só de ouvir sua voz grave e calma.

Após uma de nossas conversas telefônicas, eu não conseguia pensar noutra coisa que não fosse sexo. Liguei a TV para me distrair, mas o efeito foi contrário. Eram duas da manhã de uma sexta-feira, e só passavam filmes eróticos. Exagero: em alguns canais, havia missas. De férias e sozinha em casa, eu não tinha como alegar falta de tempo para escrever. A solução era me aliviar no computador. Aquilo tudo rendeu um conto e minha volta ao grupo literário. Além disso, abrandei certos desejos até a chegada do homem.

Os colegas ficaram felizes pelo meu retorno. O texto daquela sexta foi o primeiro a ser lido. Não preciso dizer sobre o que se tratava, dadas as circunstâncias nas quais foi escrito. Enquanto um dos rapazes lia o conto, comecei a notar um certo desconforto no grupo. Havia algo de errado com o papel: as pessoas tocavam nas folhas e olhavam para as pontas dos dedos, que estavam ficando úmidas. É. As folhas ficaram molhadas. Ao observar os colegas olhando para as próprias mãos, intrigados, enquanto esfregavam o polegar no indicador e no dedo médio, notei que não se tratava de água. O texto estava largando alguma substância transparente, semelhante à clara de ovo, talvez um pouco menos pegajosa. O colega que lia tossiu um pouco. Um outro, na minha frente, estava usando uma calça de abrigo e ficou bastante sem graça quando percebi sua ostensiva ereção.

— Incrível a umidade do sul, não é? — largou uma colega, tentando mudar o clima.

— É bom deixar o papel no sol, ou usar um desumidificador de ar na peça em que trabalhas — tentou outra, casualmente a mulher do rapaz excitado.

Fazer o quê? Voltei pra casa sem tesão e morrendo de vergonha. O conto nem chegou a ser analisado, possivelmente tinham achado uma porcaria. Num de meus surtos de autocrítica, concluí que nenhum texto meu prestava. E todos sabiam disso. Eu não enganava ninguém. Meus defeitos profissionais, minhas fraquezas pessoais, meus pensamentos mais infames eram notados por todo mundo. Era como se o planeta inteiro me observasse, com as sobrancelhas franzidas e movendo a cabeça negativamente, de um lado para o outro, em sinal de desaprovação. Nesse estado, escrevi um outro conto. Resolvi mostrá-lo só para amigos mais íntimos, com os quais me sentia mais à vontade, durante um jantar lá em casa. Criei coragem depois de todos já terem bebido um pouco (inclusive eu) e passei à leitura. Isso era raro. Eu detestava ler meus próprios trabalhos. Mas fui à luta. Gradualmente, enquanto o conto era lido, as páginas foram mudando de tonalidade. Passavam do branco ao cor-de-rosa. Sim. Meu texto corava. E acabou vermelho como um pimentão.

— Como é que tu faz isso? — quis saber um primo.

— É simples — respondeu meu cunhado. — As crianças têm um brinquedo lá em casa que se chama O pequeno químico. Dá pra fazer coisas inimagináveis. Ela deve ter o jogo também.

O pequeno químico acabou servindo de explicação para o desaparecimento gradual do conto seguinte durante a leitura. Tinha sido escrito contra a minha vontade, por insistência de meu marido, e eu odiara o resultado. Com as folhas completamente em branco nas mãos, os amigos davam risinhos espertos.

— Criativo.

Sempre tinha alguém para achar tudo muito criativo. O que me convencia, junto com as explicações racionais para tudo aquilo, a continuar escrevendo.

Meu último texto (ou penúltimo?) surgiu após uma sessão de cinema. Tango, do Carlos Saura, tinha me deslumbrado. Passei quase o dia inteiro com aquelas coreografias nos olhos, enquanto a voz da Adriana Varela não parava de cantar em meus ouvidos: que cosas hermano, que tiene la vida...

Decidi escrever à mão, talvez na esperança de que o computador fosse mesmo o culpado por todos os últimos acontecimentos. Escrevi sem parar e sem pensar até anoitecer, de uma só vez. Meus dedos doíam quando coloquei o ponto final na sétima e última página do trabalho. Nesse exato momento ouvi um trovão e faltou luz. A sala escureceu, e um vento surpreendentemente morno e confortável entrou pela fresta da janela, erguendo lentamente a primeira folha do conto, que flutuava à minha frente, mudando sua posição de vertical para horizontal. Junto com o vento morno, um raio de luz iluminava aquele papel agora totalmente em branco, enquanto o resto da sala permanecia no escuro.

Ao som de Michel Legrand, as imagens começaram a surgir na folha em branco. As primeiras foram do Tango mesmo. Depois, como naquelas montagens do Oscar, vi seqüências do Chaplin e do Woody Allen, os olhos negros de Mastroianni por trás da veneziana em Esposamante, as melhores coreografias de Fred Astaire e Gene Kelly. A música de Legrand deu lugar à de Ennio Morricone, enquanto Henry Fonda deixava o lago dourado para voltar ao Oeste, Audrey Hepburn dançava com Rex Harrison e as três cores de Kieslowski iluminavam a folha que pairava no ar. Vi muito mais. Como descrever? Era essa minha dúvida quando a luz voltou, o vento morno se foi e o papel caiu na mesa, agora repleto de palavras. Deveria mostrar o texto a outras pessoas? E se aquilo se repetisse? E se não se repetisse? Compartilhar a experiência seria maravilhoso, mas eu não encontrava nenhuma forma de explicar o fenômeno: nem o computador, nem a umidade, nem O pequeno químico o explicariam. Não a compartilhar, por sua vez, seria frustrante. Reli o texto, embora já soubesse: sem a luz, eram só palavras.
Muito pouco.

Foi assim que decidi parar. Cheia de raiva pelas impossibilidades que se mostravam, quase cedi a um impulso de expressar esse sentimento em um novo conto, mas tive medo. No que poderia resultar um texto agressivo? Quais seriam suas conseqüências? O que ocorreria com seus leitores? Melhor não escrever mais.

O pessoal do grupo literário e os amigos mais íntimos nunca me perguntaram por quê. Aos poucos, deixamos de entrar em contato. Já o público das muitas palestras que dei depois de parar de escrever só perguntava isso. Por que eu havia parado. Eu contava então toda a história e o pessoal adorava. Pensavam que eu estava sendo metafórica. Acabei deixando de lado também as palestras, apesar de darem um bom dinheiro e ajudarem nas vendas dos meus
livros.

Alguns meses depois de ter me distanciado completamente da literatura, ouvi um barulho estranho vindo do escritório e fui conferir. O teclado do computador trabalhava sozinho, como aqueles pianos especiais. Não tive tempo nem coragem para qualquer reação. Ao chegar mais perto, a máquina já enviava, pela Internet, um conto por mim assinado. Os destinatários eram os sete colegas do grupo literário, meu editor, amigos, parentes e jornalistas de publicações com as quais eu costumava colaborar. Título do trabalho: Por que parei.


09/10/1999