Crônicas

E agora?

O coquetel de lançamento foi movimentado – família grande, muitos amigos –, o humor está ok e o efeito do vinho ainda nem passou, mas a pergunta já começa a incomodar: e agora? A resposta é defensiva: e agora é prolongar ao máximo os 15 minutos de fama e não pensar no assunto pelo menos por um tempo (uns dois ou três dias, com algum esforço, às vezes se consegue). Desligar é preciso: foram anos de trabalho, escrevendo, reescrevendo, enchendo lixeiras, ouvindo opiniões diversas, respeitáveis e não raro desconcertantes pelo seu antagonismo. E depois a luta para editar, tudo muito difícil, bem como tinham avisado. Agora é aproveitar. Usufruir o retorno, que não será dos maiores. Isso também avisaram.

Já no dia seguinte à sessão de autógrafos, o e-mail de um amigo entusiasma: é a primeira manifestação de alguém que não é da área, e vem em forma de agradecimento. O livro foi a sua companhia naquela manhã de inverno, e o horário da mensagem confirma: sete e meia. Mais: ele diz que só não leu tudo porque economizou dois contos para depois. Aquilo arrepia. É um ótimo começo. Se na manhã seguinte já chegou uma mensagem, nos próximos dias devem chover e-mails. Engano. Tempos de seca. Ou nem tanto: de vez em quando uma ou outra nuvenzinha aparece, e a primeira já foi suficiente pra irrigar os olhos. Alguns colegas fazem elogios. No seu programa de rádio favorito, o livro é citado entre os lançamentos do ano que deram mais prazer de leitura. Há alguma compensação, mas se qualquer retorno agrada, todo o silêncio perturba.

Aquela amiga exigente não dá um pio a respeito. É o mais educado a fazer quando a gente não gosta, e a melhor forma de retribuir a essa polidez é não perguntando nada. Aquele professor que no segundo grau se rasgava em elogios do tipo “é minha melhor aluna” e “deves pensar seriamente em fazer literatura” recebe um exemplar com dedicatória e não se manifesta nem para agradecer. Vem à memória o comentário de um colega sobre certa inclinação do mestre por suas alunas. E é impossível esquecer que ele elogiava o “frescor e a substância” dos textos olhando a autora de cima a baixo.

Claro que nem tudo é silêncio. Correndo por fora, vem a turma dos comentários ambivalentes. “Li teu livro”, diz alguém, sorrindo, e em seguida complementa: “adorei a capa”. Muitos elogiam a dedicatória. A tia que ainda se comporta como há trinta anos comenta: “Aí, ein, guria? Muito bem! Quando é que sai o próximo livrinho?” A surpresa maior é por telefone. Uma voz meio deprimida, de quem recém acordou – e já são seis horas da tarde – pergunta pela autora do livro dos ETs. Seria a voz de alguma professora, que leu nos jornais sobre o projeto Autor Presente? Nada disso. “Sou ufóloga”, ela declara, cheia de orgulho. E não adianta tentar desfazer o equívoco, explicando que o título do livro se refere a um conto alegórico sobre nossos defeitos e a busca da perfeição. Ela não desiste e acrescenta: “Não estás muito longe da verdade. Os ETs vêm para ajudar a nos tornarmos perfeitos.”

Tem ainda a comercialização. É difícil passar por uma livraria sem dar uma espiada: está lá o seu livro, na estante de “novidades”, e você conta os exemplares, discretamente, para conferir na próxima visita: se a pilha continua igual, é porque não venderam nada, se desapareceu, conclui que devolveram tudo para o distribuidor. Não é por acaso que você é fã do Woody Allen. Sua auto-estima anda parecida com a dele. Outro problema é o contato com a editora. No início, é aquele desconforto por quase ter de implorar pelos relatórios de vendas. Depois de um tempo, quando elas vão caindo, a vontade é de implorar para que eles não mandem os números. Precisando de consolo, você pensa em todos os bons autores que quase não vendem livros, em todo aquele lixo que vende horrores e principalmente nos autores que você admira e vendem muito: alguma esperança a gente tem de manter.

Chega a Feira do Livro e com ela mais calafrios: os parentes e amigos já foram ao lançamento; quem vai aparecer na praça? Em frente a uma banca, você ouve alguém perguntando pelo seu livro, e dando o seu nome. Alguém que você nunca viu na vida. Salvação. À sua esquerda, uma fila enorme se forma em frente a um escritor famoso. À sua direita, vários autores às moscas. Dependendo da perspectiva, o seu caso não é dos piores: aparecem umas dez pessoas – entre elas aquele desconhecido, que já chega perguntando: “São contos, não é? Pensei que fosse outra coisa.“ E esclarece: outro ufólogo. Ele percebe sua decepção e acrescenta que vai ler o livro mesmo assim.

Com o tempo é possível rir de tudo, principalmente para quem já consegue achar graça de véspera. Aquela amiga exigente aparece de novo e informa que, há meses, está por dizer que adorou seus contos, mas sempre esquece. E surge a remota possibilidade de que talvez nem todos que se calaram tenham odiado o seu trabalho. Seu livro simplesmente não é a coisa mais importante na vida dos outros, hay que domar o narcisismo. E esquecer o assunto por uns tempos. Então chega o convite para participar de um painel cujo tema é “Publiquei meu primeiro livro: e agora?”

Agora é seguir escrevendo. Quem sabe um livro de auto-ajuda dirigido a ufólogos e psicografado por um ET por quem você foi abduzida – arrepios – e posteriormente a CIA eliminou? Esse vira best-seller.


09/11/2003