Resenhas e Críticas

A aventura mínima de Laís Chaffe e Marcelo Spalding

O livro Minicontos & muito menos teve sua tarde de autógrafos no dia 12 de novembro, na Feira do Livro de Porto Alegre. Em todos os sentidos os seus autores buscaram a lógica dos pássaros: o máximo de canto no mínimo de corpo. Barbaramente ilustrado por Alexandre Oliveira, o livro de Laís Chaffe e Marcelo Spalding é apresentado por um design gráfico bastante criterioso chamado Auracebio Pereira. Tudo isso embalado pelo projeto editorial Casa Verde que já podemos considerar bem sucedido. Somente a série Lilliput já alcança seu quinto volume. Numa proposta conjugada, Marcelo e Laís desafiam a teoria errante que cerca a história do miniconto. Lembro que, também em Porto Alegre, ano passado, ouvi José Eduardo Degrazzia levantar a hipótese de serem as prosas poéticas de Baudelaire, a possível origem desse gênero instigante.

Partindo do raciocínio de Degrazzia podemos observar que o miniconto se aproxima mesmo da poesia em alguns aspectos. Principalmente quanto a impossibilidade de realizarmos uma leitura linear, tanto em um quanto em outro gênero. Na verdade, o miniconto também nos exige uma leitura em rede, algo que transporta o leitor na busca de uma completude, seja em leituras anteriores, seja em observações sobre a própria vida. Refletir sobre miniconto, nos carrega até o pensamento de Roberto Acíseo se Sousa em Teoria da Literatura (série princípios, Ed. Ática): “o que problematiza pela primeira vez a literatura é a própria literatura.

Assim, lendo este livro podemos afirmar que o que problematiza a teoria do miniconto é o próprio miniconto. Especialmente no caso específico de Laís e Marcelo. Pelo que pudemos perceber num primeiro olhar sobre a obra, a despeito das acentuadas diferenças de estilo, ambos vão construindo pequenos ensaios em textos curtíssimos (ou nem tanto), de profunda qualidade literária. Sobretudo pela imensa capacidade de causar espantos até mesmo no leitor mais atento, mais inclinado ao mergulho nas infinitas possibilidades de uma narrativa. Entre outras coisas, esse Minicontos e muito menos nos revela a vigorosa capacidade de renovação de uma literatura que já produziu nomes como Érico Veríssimo, Mário Quintana, Moacyr Scliar, João Gilberto Noll, entre outros que preencheriam uma referência bastante substantiva dentro da História da Literatura de Língua Portuguesa.

As pequenas pancadas narrativas de Laís Chaffe, ora lúdicas, ora líricas, reveladoras de uma ironia suavemente machadiana, conjugada com uma tonalidade bastante descritiva do discurso jornalístico, abrem um dos lados de um livro de múltiplas faces. Uma escrita que nos trás pérolas como “Genuflexório”: (“- Irmã? / - Sim, padre? / - Não aconteceu nada aqui, está bem? / - Louvado seja Deus Nosso Senhor. / Amem.”). Crítica social, crítica de costumes, revelações da natureza humana. Tudo num texto muito bem composto em sua própria nudez. Por outro lado, parece-nos um natural contraponto o texto de Spalding, sugerindo-nos um olhar transversal que ao mesmo tempo integra, dando uma idéia de conjunto (como se cada miniconto fosse um parágrafo de um mesmo texto), ao mesmo tempo que tumultua a possibilidade de uma leitura lógica (ou seja: é isso e nada disso). O autor vai tramando, na verdade, um corte diferencial até mesmo de uma frase para outra. Ou na mesma frase: “Quando acordou, já não estava mais lá” (talvez este seja um dos menores contos do mundo).

Podemos afirmar que houve uma natural afinidade entre Laís Chaffe e Marcelo Spalding, para a construção de um livro que se consolida tanto pela qualidade gráfica quanto pela complementaridade dos autores, em textos mergulhados numa compreensão comum de um gênero que sugere sua própria afirmação no jogo das transgressões mútuas. Desta forma podemos arriscar uma assertiva quanto a feliz conexão de dois estilos bem distintos, com identidades estéticas definidas, que vão nos jogando na volúpia de uma teoria do miniconto que se traduz na própria obra, abrigando um perau cuja própria condição íngreme vai propondo um conjunto de sensações que não se rendem à mesmice. Tudo isso transbordando de dentro de uma tradição literária que se sustenta no questionamento dos seus próprios processos de busca na sedução do leitor. De nada mais precisa a nova Literatura brasileira para afirmar-se no tempo.

Não estamos inventando nada. Na travessia do século XIX para o século XX, dizia-se que os estudos da literatura ancoravam-se nos aspectos mais científicos, onde o texto pouco importava, uma vez que havia uma determinação de explicar a literatura através das circunstâncias vividas pelo autor e suas ambientações inventivas. Neste início de século XXI, por alguns bons motivos, podemos especular a possibilidade de um texto ser, ao mesmo tempo, objeto de criação e de reflexão sobre ele mesmo. Por isso, Laís Chaffe e Marcelo Spalding podem estar inaugurando aqui uma nova era, uma nova perspectiva teórica para o miniconto. Elementos não nos faltam para a construção de um ensaio a esse respeito.


Lau Siqueira
07/10/2013